"O Copilot inventou um número."
Não inventou. Ele leu TabFatDados, VlrTot e CodCli e fez o que qualquer um faria diante desses nomes: adivinhou.
Toda ferramenta de IA passa por três fases na cabeça de quem trabalha com dados: ceticismo, encantamento e, finalmente, uso adulto. O Copilot no Power BI já está na terceira — só que boa parte do mercado ainda está oscilando entre as duas primeiras.
Este artigo é um mapa prático do que o Copilot faz hoje, separado por onde ele roda. Porque o comportamento muda bastante entre Serviço e Desktop, e confundir os dois é a origem da maioria das frustrações.
Parte 1 — Copilot no Serviço (Power BI Online)
No ambiente web, o Copilot opera como um analista de plantão. Três frentes:
Perguntas em linguagem natural sobre o modelo. "Qual foi o faturamento total deste ano?", "Quais os 5 principais produtos por receita?", "Como ficaram as vendas depois de julho, só no canal online?" Ele consulta o modelo semântico — o mesmo que alimenta seus relatórios — e devolve cálculo mais visual, não só texto.
Resumo do relatório em tela. Peça "resuma esta página" e ele lê os visuais presentes, aponta tendências, destaques positivos e negativos, e anomalias. Com citação dos visuais de origem, o que é fundamental para auditoria.
Resumo direcionado. Aqui mora o ganho real: "explique o relatório focando em rentabilidade" ou "destaque apenas o que mudou versus o ano anterior". O foco no pedido muda completamente a qualidade da saída.
Regra prática: pergunta vaga gera resposta vaga. "Receita Líquida por UF no último mês disponível" produz resultado infinitamente melhor que "vendas por estado".
Parte 2 — Copilot no Desktop: onde ele deixa de responder e passa a construir
É aqui que a conversa fica interessante — e onde a maioria ainda não explorou.
Modo Exibição de Relatório
Além de responder perguntas e resumir a página atual (com resumo executivo: destaques, tendências, riscos, oportunidades), o Copilot no Desktop executa ações no relatório. Basta pedir em linguagem natural:
- Criar página completa — "Crie uma página de desempenho por região, com receita, meta e realizado."
- Adicionar visual — "Adicione um gráfico de barras com receita por UF."
- Alterar visual existente — "Troque este gráfico de barras por linhas."
- Excluir visual — "Remova o cartão de pedidos pendentes."
- Sugerir estrutura — "Sugira páginas que eu poderia criar com esse modelo."
- Desfazer e refazer — revise as ações durante a construção.
- Sugerir conteúdo — peça uma proposta de conteúdo para o relatório.
Antes de criar, ele lê o modelo — tabelas, colunas, tipos, medidas, relacionamentos — e propõe visuais coerentes, evitando duplicar a mesma métrica com a mesma segmentação e incluindo slicers quando fazem sentido.
Limitações oficiais: a criação de páginas não funciona em modelos com conexão ativa ao Analysis Services, streaming em tempo real ou medidas implícitas desativadas. O Copilot não suporta visuais personalizados nem mudanças de estilo ou formatação. O uso requer capacidade Fabric no workspace.
Observação do autor: nas perguntas sobre dados que eu testei, precisei repetir o contexto entre pedidos. Isso descreve a minha experiência, não uma regra de produto sobre ausência de memória. E se houver duas medidas parecidas no modelo, esclareça qual delas você quer usar.
Modo Consulta DAX
Aqui a experiência é conversacional: dá para refinar o pedido, por exemplo, "adicione Orders". O Copilot usa o texto da janela de consulta para trabalhar com o contexto da consulta atual.
Três usos que valem o investimento de tempo:
1. Documentar medidas herdadas. Toda empresa tem aquela medida de 40 linhas escrita por alguém que já saiu. O Copilot destrincha em linguagem de negócio: o que faz, quais tabelas usa, qual a lógica condicional.
Um padrão que aparece com frequência é a medida que precisa se comportar de forma diferente conforme a granularidade do visual:
Margem Consolidada :=
// Ajusta o cálculo conforme o nível de detalhe do contexto atual
VAR vCategoriaUnica = HASONEVALUE ( Produto[Categoria] )
VAR vMargemLinha =
DIVIDE ( [Lucro Bruto], [Receita Líquida] )
RETURN
IF (
vCategoriaUnica,
vMargemLinha,
// No total, recalcula sobre os agregados em vez de somar percentuais
DIVIDE (
SUMX ( VALUES ( Produto[Categoria] ), [Lucro Bruto] ),
SUMX ( VALUES ( Produto[Categoria] ), [Receita Líquida] )
)
)
O ponto aqui — HASONEVALUE para detectar granularidade e SUMX sobre VALUES para agregar corretamente — resolve o clássico problema do total que não bate com a soma das linhas.
2. Criar medidas derivadas. Ranking, participação no total, médias móveis sobre calendário fiscal. Exemplo de share:
percentualParticipacaoCategoria :=
VAR vTotalGeral =
CALCULATE ( [Receita Líquida], ALL ( Produto ) )
RETURN
DIVIDE ( [Receita Líquida], vTotalGeral )
3. Trabalhar com queries DAX. Blocos DEFINE MEASURE + EVALUATE — o formato do DAX Query View e do DAX Studio — permitem testar cenários sem tocar no modelo:
DEFINE
MEASURE Vendas[receitaAcumuladaAno] =
CALCULATE (
[Receita Líquida],
DATESYTD ( Calendario[Data], "09-30" )
)
EVALUATE
SUMMARIZECOLUMNS (
Calendario[Ano Fiscal],
Produto[Categoria],
"Receita Líquida", [Receita Líquida],
"Acumulado no Ano", [receitaAcumuladaAno]
)
ORDER BY
Calendario[Ano Fiscal],
Produto[Categoria]
Filtrar um período, uma categoria, um cliente — e verificar se a medida se comporta como deveria em cada granularidade. Esse é o teste que separa medida robusta de medida que "funciona no visual de hoje".
Parte 3 — O que o Copilot não resolve por você
Sejamos francos, porque isso é o que ninguém coloca no material de marketing:
Modelo ruim, resposta ruim. O Copilot lê nomes de tabelas, colunas e medidas para inferir significado. Se seu modelo tem TabFatDados, VlrTot e CodCli, ele vai adivinhar — e adivinhação em produção chama-se risco. Nomenclatura clara não é preciosismo estético; virou requisito técnico, insumo direto de qualidade da IA.
Relacionamentos inativos e contexto fiscal. Ele ajuda com USERELATIONSHIP e alerta sobre ano fiscal em DATESYTD, mas quem decide a regra de negócio é você.
Curadoria de mensagem. Ele produz insights descritivos. Transformar isso em narrativa que muda decisão — mensagem principal, hierarquia visual, o que cortar — continua sendo trabalho humano.
Validação. Todo número que sai do Copilot precisa passar pelo mesmo crivo de qualquer número: bate com a fonte? A granularidade está correta? O total fecha?
O checklist de 5 itens para extrair valor real
- Nomeie para ser lido por máquina e por humano. Nomes de negócio no modelo semântico, prefixos técnicos nas camadas físicas.
- Escreva descrições nas medidas. O Copilot lê a propriedade Description, mas só os primeiros 200 caracteres. Coloque o significado essencial no começo.
- Esconda o que não é para ser consumido. Colunas técnicas, chaves, campos auxiliares — fora do modelo visível.
- Seja específico no prompt. Medida + dimensão + período. Sempre.
- Valide antes de publicar. Sempre.
Fechando
O Copilot não substitui quem entende do negócio — ele acelera quem já entende. A diferença entre um usuário que extrai valor e um que se frustra quase nunca está na ferramenta. Está no modelo por trás dela.
Quem investiu em modelagem dimensional limpa, nomenclatura consistente e medidas documentadas colhe o benefício agora, sem tocar em nada. Quem não investiu acabou de ganhar o argumento definitivo para fazê-lo.
E você — já testou o Copilot em modo Desktop para criar página inteira? O que funcionou e o que não funcionou?