Em todo projeto de tecnologia, nasce uma tensão silenciosa (ou nem tanto) entre dois lados:
- NÓS: o time de TI — especialistas em dados, Power BI, DAX, Power Query, M, deploy, governança, performance e café forte.
- ELES: os clientes internos — marketing, RH, financeiro, comercial… que só querem um dashboard simples, bonito e pronto pra ontem.
Mas calma, ninguém é vilão aqui. O que existe é uma coisa chamada: "Choque de Expectativas Não Alinhadas" (também conhecido como "mais um pedido urgente no fim do dia").
A frase que resume tudo
"Só existem dois tipos de clientes: os exigentes e os sofisticados." — Aloisio Kukolj
E adivinha? Eles são os nossos queridos (e desafiadores) clientes internos.
- Os exigentes priorizam escopo e prazo. Querem o número certo, na hora certa — o foco é o "agora", não o design do relatório.
- Os sofisticados buscam requinte, narrativa visual e impacto de palco. Querem causar aquele efeito "uau" — e, se possível, brilhar na reunião como se fossem os autores do dashboard.
E nós? Só queríamos um briefing claro, dados limpos, CPF no campo certo e — pelo amor dos dados — que ninguém peça gráfico de pizza com mais de 5 fatias... ou gráfico de linha com nome de produto no eixo X.
Por que o conflito acontece?
Porque falamos idiomas diferentes. Olha só:
| Nós (TI / Dados) | Eles (Negócio) |
|---|---|
| Fazemos DAX como quem faz origami lógico | Acham que DAX é um novo modelo de impressora |
| Transformamos 30 mil linhas no Power Query sem suar | Preferem colar tudo no Excel "porque é mais fácil" |
| Criamos relacionamento em estrela no modelo de dados | Só querem ver tudo numa única tabela gigante |
| Valorizamos governança, performance, padronização | Valorizam agilidade, visual bonito e "funcionar logo" |
O dilema do analista de dados
Você criou essa medida orgulhosamente:
% Crescimento YOY =
VAR VendasAtual =
CALCULATE ( [Total Vendas], 'Calendario'[Ano] = MAX ( 'Calendario'[Ano] ) )
VAR VendasAnterior =
CALCULATE ( [Total Vendas], 'Calendario'[Ano] = MAX ( 'Calendario'[Ano] ) - 1 )
RETURN
DIVIDE ( VendasAtual - VendasAnterior, VendasAnterior )
Você testou, validou e até usou VAR com carinho.
Mas o cliente pergunta: "Mas cresceu ou caiu?"
Nesse momento, você percebe: não basta entregar dados — é preciso contar uma história com eles.
E no Power Query?
Você fez mágica com M:
Table.AddColumn(Fonte, "Ano", each Date.Year([Data Venda]))
Tudo certo, colunas organizadas, joins lindos.
Mas o cliente diz: "Hmmm, os totais aqui não batem com minha planilha."
Sua vontade? Explicar sobre linhas duplicadas, datas inconsistentes, joins left outer...
A real? Ele só queria saber se podia confiar no número.
DataViz, storytelling e a síndrome do dashboard incompreendido
Você monta um visual cheio de amor:
- Gráfico de barras empilhadas com tooltip dinâmica
- Filtros cruzados
- Card com total ajustado por seleção
E o cliente diz: "Legal, mas dá pra fazer um gráfico de pizza giratória igual o do PowerPoint?"
Respira. Não briga. E lembra: sofisticação demais sem contexto é só confusão visual.
Nem todo gráfico serve pra tudo: dashboards, slides, sites e Excel falam línguas diferentes
Um dos maiores pontos de ruído entre "nós" (TI/dados) e "eles" (negócio) é achar que toda visualização serve pra qualquer meio. Mas não é bem assim:
- Dashboards pedem interatividade e decisões rápidas. Não são apresentações.
- Apresentações precisam de impacto, foco e narrativa clara. Nada de 12 gráficos por slide!
- Sites são portais, não repositórios de BI. Precisam ser leves e intuitivos.
- Excel é liberdade total… e caos total. Ótimo pra rascunhar, perigoso pra entregar.
Cada meio tem uma linguagem. Entregar um gráfico fora de contexto é como dar um controle remoto pra quem só queria um botão de "liga/desliga".
Moral: o problema não é o visual. É onde (e como) ele aparece.
Como transformar "nós vs eles" em "nós COM eles"
- Entenda o problema real, não só o pedido.
- Fale humano, não técnico.
- Use o storytelling nos visuais. Título: "Vendas caíram 12% no Sul por queda em março". Ícones simples, destaque visual e insights prontos pra ação.
- Crie confiança em entregas pequenas e rápidas. Melhore o rascunho junto com o cliente, ao invés de sumir 3 semanas e voltar com um monstro técnico que ninguém entende.
- Eduque com leveza. Mostre, compare, explique. Mas não subestime: ninguém quer tutorial — querem resolver um problema. Então eduque enquanto entrega.
E aí, bora desabafar?
- Qual foi o dashboard mais bonito que ninguém entendeu?
- E aquela planilha do cliente que virou um monstro em Power Query?
- Já criou uma medida digna de prêmio que virou... um "aham, legal"?
Se você é do lado "nós", ou do lado "eles", sua história merece ser contada (e ouvida com empatia).