Artigo · Dados, negócio e storytelling · 4 min de leitura

"Nós" vs "Eles" no mundo dos dados: um storytelling sobre data storytelling

Por Paulo André Jesus · Publicado em 03/04/2025 · Atualizado em 01/11/2026

Em todo projeto de tecnologia, nasce uma tensão silenciosa (ou nem tanto) entre dois lados:

  • NÓS: o time de TI — especialistas em dados, Power BI, DAX, Power Query, M, deploy, governança, performance e café forte.
  • ELES: os clientes internos — marketing, RH, financeiro, comercial… que só querem um dashboard simples, bonito e pronto pra ontem.

Mas calma, ninguém é vilão aqui. O que existe é uma coisa chamada: "Choque de Expectativas Não Alinhadas" (também conhecido como "mais um pedido urgente no fim do dia").

A frase que resume tudo

"Só existem dois tipos de clientes: os exigentes e os sofisticados." — Aloisio Kukolj

E adivinha? Eles são os nossos queridos (e desafiadores) clientes internos.

  • Os exigentes priorizam escopo e prazo. Querem o número certo, na hora certa — o foco é o "agora", não o design do relatório.
  • Os sofisticados buscam requinte, narrativa visual e impacto de palco. Querem causar aquele efeito "uau" — e, se possível, brilhar na reunião como se fossem os autores do dashboard.

E nós? Só queríamos um briefing claro, dados limpos, CPF no campo certo e — pelo amor dos dados — que ninguém peça gráfico de pizza com mais de 5 fatias... ou gráfico de linha com nome de produto no eixo X.

Por que o conflito acontece?

Porque falamos idiomas diferentes. Olha só:

Nós (TI / Dados)Eles (Negócio)
Fazemos DAX como quem faz origami lógicoAcham que DAX é um novo modelo de impressora
Transformamos 30 mil linhas no Power Query sem suarPreferem colar tudo no Excel "porque é mais fácil"
Criamos relacionamento em estrela no modelo de dadosSó querem ver tudo numa única tabela gigante
Valorizamos governança, performance, padronizaçãoValorizam agilidade, visual bonito e "funcionar logo"

O dilema do analista de dados

Você criou essa medida orgulhosamente:

DAX
% Crescimento YOY =
VAR VendasAtual =
    CALCULATE ( [Total Vendas], 'Calendario'[Ano] = MAX ( 'Calendario'[Ano] ) )
VAR VendasAnterior =
    CALCULATE ( [Total Vendas], 'Calendario'[Ano] = MAX ( 'Calendario'[Ano] ) - 1 )
RETURN
    DIVIDE ( VendasAtual - VendasAnterior, VendasAnterior )

Você testou, validou e até usou VAR com carinho.

Mas o cliente pergunta: "Mas cresceu ou caiu?"

Nesse momento, você percebe: não basta entregar dados — é preciso contar uma história com eles.

E no Power Query?

Você fez mágica com M:

M
Table.AddColumn(Fonte, "Ano", each Date.Year([Data Venda]))

Tudo certo, colunas organizadas, joins lindos.

Mas o cliente diz: "Hmmm, os totais aqui não batem com minha planilha."

Sua vontade? Explicar sobre linhas duplicadas, datas inconsistentes, joins left outer...

A real? Ele só queria saber se podia confiar no número.

DataViz, storytelling e a síndrome do dashboard incompreendido

Você monta um visual cheio de amor:

  • Gráfico de barras empilhadas com tooltip dinâmica
  • Filtros cruzados
  • Card com total ajustado por seleção

E o cliente diz: "Legal, mas dá pra fazer um gráfico de pizza giratória igual o do PowerPoint?"

Respira. Não briga. E lembra: sofisticação demais sem contexto é só confusão visual.

Nem todo gráfico serve pra tudo: dashboards, slides, sites e Excel falam línguas diferentes

Um dos maiores pontos de ruído entre "nós" (TI/dados) e "eles" (negócio) é achar que toda visualização serve pra qualquer meio. Mas não é bem assim:

  • Dashboards pedem interatividade e decisões rápidas. Não são apresentações.
  • Apresentações precisam de impacto, foco e narrativa clara. Nada de 12 gráficos por slide!
  • Sites são portais, não repositórios de BI. Precisam ser leves e intuitivos.
  • Excel é liberdade total… e caos total. Ótimo pra rascunhar, perigoso pra entregar.

Cada meio tem uma linguagem. Entregar um gráfico fora de contexto é como dar um controle remoto pra quem só queria um botão de "liga/desliga".

Moral: o problema não é o visual. É onde (e como) ele aparece.

Como transformar "nós vs eles" em "nós COM eles"

  • Entenda o problema real, não só o pedido.
  • Fale humano, não técnico.
  • Use o storytelling nos visuais. Título: "Vendas caíram 12% no Sul por queda em março". Ícones simples, destaque visual e insights prontos pra ação.
  • Crie confiança em entregas pequenas e rápidas. Melhore o rascunho junto com o cliente, ao invés de sumir 3 semanas e voltar com um monstro técnico que ninguém entende.
  • Eduque com leveza. Mostre, compare, explique. Mas não subestime: ninguém quer tutorial — querem resolver um problema. Então eduque enquanto entrega.

E aí, bora desabafar?

  • Qual foi o dashboard mais bonito que ninguém entendeu?
  • E aquela planilha do cliente que virou um monstro em Power Query?
  • Já criou uma medida digna de prêmio que virou... um "aham, legal"?

Se você é do lado "nós", ou do lado "eles", sua história merece ser contada (e ouvida com empatia).

Publicado originalmente no LinkedIn. Ver a publicação original

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